sábado, 11 de julho de 2015

06/05/2013

Tráfico de vida silvestre: grito ignorado

O tráfico internacional de animais e plantas silvestres é uma das principais ameaças à biodiversidade mundial. Já passou da hora de a humanidade rever o uso que faz dela!

por Juliana Machado Ferreira - Planeta Sustentável
     
Mario Crema
Tucano-toco
Tucano-toco em cativeiro
Quando pensamos em atividades lucrativas e ilegais, automaticamente vêm à mente drogas, armas, produtos falsificados. Poucos se lembram da atividade criminosa que é apontada como uma das cinco mais relevantes do mundo: o comércio ilegal de plantas e animais silvestres e seus subprodutos.
Assim como toda atividade ilícita, é muito difícil quantificar valores movimentados e número de animais eplantas traficados. Contudo, as estimativas são assustadoras: o comércio ilegal de vida silvestremovimentaria, por ano, de 5 a 20 bilhões de dólares e configura, junto com a perda e degradação de habitats, a maior ameaça à biodiversidade global.
tráfico de vida silvestre pode ser dividido em quatro categorias principais:
1. A primeira é a demanda por partes e produtos de plantas e animais, que envolve suvenires, amuletos, troféus, artigos de medicina tradicional, afrodisíacos, iguarias, joias, bolsas, cintos, sapatos, casacos, instrumentos musicais, móveis, entre muitos outros. Esses produtos são confeccionados com diferentes partes de diversas espécies - cascos e carne de tartarugas, patas e cabeças de ursos, cervídeos e felinos, corais, madeiras de lei, órgãos genitais de tigres e botos, chifres de rinocerontes, marfim de elefantes, penas de aves, peles de felinos, couro de répteis, vesículas biliares de ursos - a lista é gigantesca, e o mau gosto maior ainda.
A demanda por esses produtos é imensa e está distribuída ao redor do globo, envolvendo pessoas de diferentes nacionalidades, culturas e níveis sociais. Atualmente, o maior mercado é o asiático, devido à conjunção de três fatores: a relevância da medicina tradicional para a maior parte das pessoas da região, o número populacional elevado e o consistente aumento do poder aquisitivo local.
2. Em seguida, figura o tráfico para suprir a demanda por animais de estimação silvestres. Mais uma vez, o mercado é global e muito variado social e culturalmente. No topo da lista figuram peixes para aquário, aves, répteis, mamíferos e anfíbios. Praticamente nenhum grupo animal escapa. E é também quase impossível tentar realizar estimativas de números de animais traficados globalmente;
3. Esta categoria vem suprir a demanda de colecionadores e zoológicos desonestos por animais raros, caros e, muitas vezes, de espécies ameaçadas. Em geral, quanto mais raro o animal, maior o seu valor no mercado negro e é justamente aí que mora a característica mais maligna desta categoria. O mercado consumidor também é global.
4. Por fim, pode ser citada também a biopirataria, atividade que tem como principais alvos animais que contém algum tipo de veneno (principalmente insetos, répteis, anfíbios e alguns animais marinhos), além de plantas diversas, e a exploração do conhecimento tradicional de uso dessas espécies para a confecção de produtos para venda no mercado global.
O comércio ilegal de vida silvestre tem graves consequências em três frentes principais:
- o sofrimento dos animais,
- a saúde pública e
- a conservação ambiental.
Por um lado, o impacto mais aparente dessa atividade é o enorme sofrimento a que os animais são submetidos: técnicas de coleta violentas, retirada de animais com apenas alguns dias de vida, transporte em espaços muito pequenos e confinados, levando a lesões em patas, pernas, bicos ou penas, à livre dispersão de doenças, a níveis de estresse altíssimos, além de maus tratos como desidratação, falta de alimento, manutenção em caixas de transporte sujas, em temperaturas muito altas ou muito baixas. Tudo isso para serem vendidos e, então, mantidos em jaulas ou gaiolas para o resto de suas vidas.
Por outro lado, esta situação configura também um problema de saúde pública, já que animais silvestres são reservatórios naturais de zoonoses, podendo infectar pessoas com diversas doenças como febre amarela, tuberculose, toxoplasmose, gripe aviária, raiva, ornitose, etc.
Por fim, o tráfico de vida silvestre traz impactos relevantes, e muitas vezes pouco percebidos pelas pessoas, para a conservação ambiental. Os animais - e, em alguns casos, plantas - transportados e vendidos fora de suas áreas de ocorrência podem acabar escapando (ou serem liberados propositadamente) para o ambiente e se tornarem espécies invasoras, com grande impacto nas populações naturais locais, competindo por recursos e mesmo causando extinções locais das populações residentes. Além disso, quando inúmeros indivíduos de uma espécie são retirados de forma regular do ambiente, deixarão de cumprir suas funções ecológicas como reprodutores, presas, predadores, dispersores de sementes, polinizadores, entre outras. Com isso, pode ocorrer não apenas a extinção local da população da espécie explorada, como sua extinção total, ou mesmo, um colapso do ecossistema envolvido, até com impactos econômicos para a sociedade.
E ainda há outra questão importante que envolve o tráfico de vida silvestre: a reintegração de animais apreendidos e reabilitados de volta à natureza - como forma de mitigação dos impactos gerados por sua retirada - que é um processo na maioria das vezes lento, caro e complicado. Apesar de ser possível realizar solturas responsáveis, o ideal é que os animais não sejam retirados da natureza, nem transportados por longas distâncias e vendidos a inúmeros consumidores para, então, serem apreendidos, reabilitados e soltos.
O desequilíbrio nos ecossistemas pode levar ao desequilíbrio de espécies (animais e vegetais) das quais necessitamos como fontes de recursos naturais, como polinizadoras de nossas culturas, protetoras do solo contra erosão, das fontes de água, da transpiração que envia umidade de volta à atmosfera, entre muitas outras funções. É muito importante ressaltar que estes desequilíbrios afetam a qualidade de vida e as finanças de nossa sociedade, por mais distante que isso possa parecer.
O combate ao tráfico de vida silvestre será eficaz apenas se um tripé de ações de curto, médio e longo prazo for realizado de forma paralela, todas com igual importância. A redução da demanda se dará com a conscientização do público em relação à origem dos animais e produtos, a atividade criminosa será desestimulada através do apoio a forças policiais e fiscalizadoras e a mitigação dos impactos será mais relevante com a realização de mais estudos das espécies envolvidas, além de um trabalho sério e duradouro de apoio a comunidades vulneráveis com inclusão social e criação de fontes de renda estáveis.
As culturas são entidades dinâmicas e precisam evoluir. O conhecimento dos impactos e consequências de nossas atividades nos faz capazes de reflexão e aprendizado. Já passou da hora de a humanidade rever o uso que faz da biodiversidade.
FONTES
Os sites das ONGs Freeland e Traffic e as publicações:
- Barber-Meyer, S.M. 2010. Dealing with the clandestine nature of wildlife market surveys. Conservation Biology (24): 918-923;
- Regueira, R.F.S. & Bernard, E. 2012. Wildlife sinks: quantifying the impact of illegal bird trade in street markets in Brazil. Biological Conservation (149): 16-22;
- RENCTAS, 2001. 1º Relatório Nacional sobre o tráfico de Fauna Silvestre. 107p.
*Juliana Machado Ferreira é bióloga, com mestrado e doutorado em Genética, Diretora Executiva da Freeland Brasil e colaboradora da SOS Fauna. Nutre uma admiração profunda pela biodiversidade global e um otimismo incorrigível em relação ao futuro da humanidade e de todas as formas de vida. Seu e-mail: juliana@freelandbrasil.org.br